Aliança com Maluf: um problema ideológico ou moral?

Nos últimos dias, com a repentina mudança de rumos na eleição paulistana e o ingresso do PP de Paulo Maluf na coligação de Haddad, parcela da base de esquerda tem se visto entre a resignação pragmática que passa próxima ao silêncio ou a indignação de quem gostaria de ver ainda esperança na diferença das coisas e que, nesse sentido, via um resgate histórico na presença de Erundina como vice do petista.

As críticas passam tanto pela histórica diferença ideológica da esquerda com o malufismo quanto pela questão moral, já que o Ex-Governador biônico é um dos mais notórios corruptos do mundo.

Em meio a uma forte despolitização (e um equivalente moralismo) do debate político, tende a prevalecer a crítica não à aliança com o PP (sucedâneo da Arena), mas à figura de Maluf e os milhões desviados em obras públicas. Tanto assim que algumas defesas um pouco envergonhadas tendem a referir que “aliança é com o PP, que está no Governo Federal desde 2003”.

O maior problema de aliar com Paulo Salim Maluf, no entanto, não é de ordem moral. Não é o fato de ele ter evadido milhões de dólares para o exterior e ter mandado de prisão que o impede de sair do país. Nem do fato de se tratar de uma das tantas pessoas que se mantém deputado para ter foro privilegiado, pois sabe que o dia em que for um cidadão comum, talvez tudo desande. Embora o problema de Maluf ultrapasse a simples moralidade pública para a seara criminal, ainda assim esse não é seu maior problema.

Maluf é o símbolo mais clássico da direita no Brasil. Foi Prefeito (69-71), Secretário Estadual dos Transportes (71-75) e Governador (79-82), tudo isso sem um único voto. Desnecessário referir que a ditadura militar em São Paulo foi cruel, com o forte aparato repressivo organizado pelo Governo e financiado pelo empresariado, sob o nome de Operação Bandeirantes. No Cemitério de Perus, foram enterradas dezenas de desaparecidos pela repressão, em descobertas que ainda estão sendo feitas na esteira da Comissão da Verdade e outras investigações que buscam desvelar a verdade histórica.

Retomada a democracia, Maluf demorou dez anos até se eleger Prefeito, em 1992, derrotando Suplicy. Após, elegeu Celso Pitta, em história que bem conhecemos. O malufismo, que já representava uma história de obras faraônicas, fanfarronice e repressão, retomou sua força nos anos 90 com mais obras farsescas, loteamentos de papelão, conservadorismo caricato e escândalos.

Mas Maluf representa em São Paulo algo que talvez alguns estados brasileiros sequer tenham conhecido durante os últimos vinte anos: uma voz escancarada do protofascismo, a fazer discurso de forte viés autoritário, dialogando com o pior do senso comum.

Lembro da eleição em que disputou o Governo com Covas, em 98. Uma das claras contraposições que Maluf fazia ao tucano era um programa que Covas tinha implementado que tirava do serviço de rua por um determinado período qualquer policial que matasse em operação, independente das razões. Entendia Covas que, mesmo que um policial matasse em serviço por estrita defesa pessoal, ainda assim aquele episódio deveria ser encarado como um trauma. Logo, esse sujeito deveria ficar um período em observação e tratamento psicológico. Maluf atacava o programa, sob um ponto de vista repressivo: aquela opção do governo tirava de rua bons policiais e os desestimulava na “luta contra a bandidagem”. Isso num tempo em que o PSDB ainda tinha setores ligados a uma ideia humanista de sociedade. Maluf sempre foi trevas no que refere a direitos humanos.

Em 2000, disputando o segundo turno com Marta, Maluf atacou mais uma vez com as piores armas da nojeira ideológica. A diretriz fundamental dos seus ataques à candidata do PT era sua ligação aos direitos dos homossexuais, em sua passagem pela Câmara dos Deputados (94-98). Espalhou cartazes pela cidade com a foto de um travesti e a inscrição: “ELAS querem mandar”, referindo-se aos travestis e a feministas como Marta, incapazes de guardar seu papel social. Também durante a campanha largou uma das suas fanfarronices, num dos vários discursos que fez atacando Marta por sua relação com o movimento guei afirmando que, para ele, “homem com homem dá lobisomem”.

Logo, parece fundamental estabelecer que o malufismo não é um fenômeno menor na política, capaz de ser “absorvido” por ninguém, mas a expressão do que há de pior no senso comum da sociedade. Sempre mobilizou o que havia de pior de São Paulo. Nos últimos anos perdeu a força social (especialmente seu líder, o “Dr. Paulo”) porque o eleitorado malufista foi migrando para o PSDB na medida em que os tucanos foram deslocando seu programa mais à direita com a morte de Covas e ascensão de Alckmin e Serra. Totalmente errôneo, no entanto, achar que Maluf é um líder sem programa apenas porque não tem mais tantos eleitores: ele segue sendo o mesmo Maluf, o mesmo símbolo e o mesmo conteúdo. E por mais que Serra esteja se esforçando há tempos para igualar Maluf em direitismo, só consegue empatar.

Não há como disputar eleições num quadro partidário de mais de cinquenta partidos sem construir alianças esdrúxulas. Nem devemos sonhar com um quadro de bipartidarismo que não faz parte de nossa tradição política. Hoje, no entanto, essa profusão de siglas (que nem  partido são, porque, grande maioria, não tem um programa) faz com que as principais forças partidárias e lideranças corram atrás de amontoar legendas como única forma de ter força eleitoral, tempo de TV e outras vantagens sobre os adversários. A questão é: qual o limite da ampliação das alianças? Ou não deve existir esse limite?

Episódios como a aliança PT-Maluf em São Paulo não devem nos escapar em nome da conveniência, mas servirem de reflexão sobre esses limites e sobre o que fazer para tais movimentos não serem mais necessários num futuro próximo (se é que o são agora). Não é aceitável que a cada eleição as alianças se desloquem de modo tão brusco e incoerente. Isso despolitiza demais o debate público.

E aí insisto: o problema de uma aliança com Maluf não é porque ele é um procurado pela Interpol ou porque deveria ser um procurado pela Justiça brasileira. Isso é apenas um elemento a compor a figura pública. Aliar com Maluf é admitir compor com o seu conteúdo. Ele sempre esteve do outro lado da cerca. Relativizar isso é grave.

E não há como apresentar Haddad como “o novo” quando está aliado ao que há de pior do “velho”. Aliás, essa discussão sobre “o novo” que vem para derrotar “o velho” é complexa e mereceria nota. Mas aí é tema para outro debate.

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