O centenário de Jorge Amado e o Brasil atual

Talvez apenas por coincidência, a cena em que o Cel Jesuíno mata sua esposa e o amante foi ao ar (na novela Gabriela) no mesmo dia do sexto aniversário da Lei Maria da Penha. Ela ilustra, como a história toda, um período em que o senso comum e o próprio sistema penal considerava a mulher propriedade do homem. Como consequência disso, eram justificados os chamados “crimes de honra”.

Mas é do centenário escritor baiano que quero falar. No dia 10 de agosto de 2012, completam 100 anos de seu nascimento, em data que será muito menos celebrada do que deveria, considerando o tamanho da sua personalidade e sua obra.

Numa também feliz coincidência, motivado pela refilmagem da Globo, reli “Gabriela, Cravo e Canela”, uma obra magistral. Jorge Amado faz um retrato de uma época, de como as coisas funcionavam no início do Século XX, seja na política, seja na moral da sociedade e seus costumes.

Na organização política, ilustra perfeitamente o papel dos coronéis na República Velha: como distribuíam o poder entre si, de como o Coronel Ramiro Bastos era a autoridade da cidade, decidindo sobre a política, a economia, a moral e até dos temas religiosos. De como a fraude eleitoral era a regra. De como os mandatos eram distribuídos ao bel prazer do Chefe, sem a menor preocupação com a vontade popular. A resolução de qualquer divergência podia terminar num homicídio. Nesse sentido, muitos “cantos” do nosso país estão aí pra mostrar que a realidade não mudou tanto quando se pensa honra ou luta pela terra.

Quando leio romances que retratam a República Velha ou o Império (os de Machado de Assis, em especial), fico a pensar sobre a conveniência de se implantar a chamada “lista fechada”. Se não estaríamos voltando a um período em que o sujeito precisaria apenas ser querido entre um pequeno grupo de dirigentes, sem a menor preocupação em obter votos para ter um mandato.

O outro ponto que Jorge Amado aborda de forma incrível no romance é a questão da organização familiar. Se a cidade é controlada por um Coronel soberano da vontade geral, as famílias são profundamente patriarcais: cada núcleo tem o seu Coronel, que pode dispor do patrimônio, das vontades, decidir com quem sua filha casará, agredir e até matar a sua mulher, porque propriedade sua. Nesse sentido, o homicídio cometido pelo Coronel Jesuíno é utilizado por Jorge Amado como um elemento articulador: o romance se inicia com o cometimento e é fechado com o resultado do seu julgamento, até como ilustração de uma mudança de época. Genial.

O moralismo de uma sociedade machista limita totalmente a vontade das mulheres, proibidas de terem prazer, desejo ou qualquer reflexão. A feminista Malvina é a única personagem com olhar no século XX, de todas aquelas mulheres ensinadas que amor é igual à submissão.

O mais incrível na reflexão que “Gabriela” nos gera é pensar que, embora a realidade abordada seja a de 100 anos atrás, alguns dos preconceitos abordados com crítica pelo autor ainda vivem hoje e são sólidos. A hipocrisia social em torno do papel da prostituição talvez seja tão atual quanto no livro: embora tão próxima de todos, segue sendo objeto de repúdio, inflamados discursos de ataque e segregação social. Mas está ali, como local da frequência e fantasia do universo masculino, mesmo que todos finjam não existir.

A estruturação da família, tal qual á mostrada em “Gabriela”, embora pareça superada, ainda vive fortemente em nossa cultura. A mulher ainda sofre opressão e violência (toda semana temos notícia de algum homem ciumento que mata a companheira ou ex). A estruturação da ideia de família ainda sofre uma patrulha moral muito mais forte do que deveria, razão pela qual ainda estamos discutindo sobre o direito de duas pessoas do mesmo sexo legalmente comporem um casal ou não, se podem adotar uma criança ou não, se um homossexual tem direito de herança ou pensão de um companheiro falecido. Embora o Direito de Família venha passando por enormes transformações recentes, ainda assim as vivemos com uma lentidão assustadora.

Numa sociedade que parece regredir, retornando a uma patrulha fortíssima da religiosidade sobre as decisões da coletividade e mesmo sobre o comportamento íntimo das pessoas, ler “Gabriela” deve fazer pensar se não voltaremos em breve ao século XIX. Esse, aliás, é o projeto estratégico das bancadas evangélica e ruralista, por exemplo.

Logo, a maior grandeza de Jorge Amado, no seu centenário, é nos trazer o passado como ilustração tanto do que já transformamos (e não são poucas as coisas), daquilo que segue muito parecido e daquilo com o qual devemos nos atentar para não voltar a repetir. Assim, “Gabriela” e outras obras de Jorge Amado servem não apenas como um guia para entender a história e a identidade brasileira, mas um roteiro importante para refletir várias das nossas pautas atuais, tanto da estrutura da nossa política como da nossa ideia de família.

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