O que Valério, o “homem que sabe demais”, quer dizer?

Um assunto tem pautado parte do debate dos últimos dias: o publicitário Marcos Valério teria novas revelações a fazer. O Semanário do Esgoto dedicou a ele duas capas em pouco mais de um mês.

Na primeira, Valério teria dado entrevista vinculando o ex-presidente Lula ao “mensalão”. Após alguns dias de blefe, não apareceu nenhuma prova material de que Valério teria dado tais declarações contidas na matéria. O advogado dele, por sua vez, declarou estranheza, já que seu cliente há muito tempo mantém silêncio.

Na segunda matéria, o foco muda um pouco: apavorado com o conjunto de condenações que podem lhe levar a uma condenação de mais de 40 anos, Valério teria “novas declarações” a fazer, buscando evitar o regime fechado, por meio de uma delação premiada. Teria para isso procurado o Procurador Geral da República, Gurgel, de movimentos e declarações que o tornam figura de menor credibilidade que muitos dos réus do processo.

Muitos mistérios permeiam as matérias, muita coisa “não fecha”. As omissões de informação são o mais grave.

O primeiro aspecto que é pouco lembrado pela “grande” imprensa é o fato de que Valério ainda é réu em outro processo, já que o “Mensalão Mineiro” ainda não foi julgado. No caso, Valério será julgado pelo juízo criminal de Belo Horizonte, por não ter foro privilegiado, já que o processo foi desmembrado, como deveria ter sido o da Ação Penal 470. O volume de recursos movimentados e de gente envolvida é ainda maior no esquema de financiamento da campanha à reeleição de Eduardo Azeredo (hoje deputado federal pelo PSDB). Trata-se, portanto, de mais uma espada sobre a cabeça de Valério, que poderá ser condenado também a gravíssima pena pelo esquema tucano.

O segundo aspecto que precisa ser ressalvado é que, no processo que está sendo julgado no Supremo, não há mais como Valério obter delação premiada com o intuito de reduzir sua pena. O processo já está em fase de dosimetria da pena: já foi instruído e julgado. Possivelmente se adotará a proposta do Min. Marco Aurélio de recálculo das penas de Valério por se aplicar ao caso a figura do crime continuado (quando, ao invés de várias penas, se estipula apenas uma condenação, com acréscimo), do que diminuirá a condenação. Ainda assim, ele e mais alguns réus não escaparão de alguns anos em regime fechado.

Ao que tudo indica, o processo foi bem instruído, colhendo muitas provas e chegando a 38 réus. Destes, 25 foram condenados, por existirem provas suficientes ou mesmo pela adoção da “teoria do domínio do fato”, forma pela qual o STF procurou enquadrar os principais líderes do PT mesmo que a prova da efetiva participação deles nos crimes não fosse tão clara. Tivesse que ter sido ofertada a Valério a delação premiada, tal teria ocorrido há alguns anos, não na fase atual.

Logo, é legítimo deduzir que Valério falou, na Ação Penal 470, tudo o que quis e lhe interessou. E se não trouxe aos autos tudo o que sabia, foi por opção sua. Como dito, não escapará de alguns anos em regime fechado, dada a gravidade do julgamento e das penas atribuídas.

No entanto, repita-se, outro julgamento envolve o publicitário mineiro: o do esquema de financiamento anteriormente operado por ele, a serviço de próceres do PSDB. Se efetivamente Valério está fazendo um movimento para obter delação premiada em troca de ajuda na produção de provas, tal se presta mais ao julgamento que virá. Valério, com tal expediente, tentaria se livrar de mais uma condenação pesada, capaz de lhe estender o tempo em regime fechado, fazendo com que, após os aproximados 6 (seis) anos que terá de cumprir por conta da AP 470, passaria a cumprir regime semiaberto.

Esse é um raciocínio lógico, embora de quem não conhece os autos nem da Ação Penal 470 nem do chamado “Mensalão Tucano” ou “Mineiro” (conforme o gosto do freguês). Mas se tem alguma lógica, porque a grande imprensa não o faz, nunca, insistindo que Valério buscaria uma delação premiada no caso que envolve alguns líderes petistas?

Nesse ponto, mais uma vez a lógica permite dizer: a insistência da mídia de massa é exatamente tentar confundir o debate. Ao colocar Valério em evidência por conta do “Mensalão”, esquecendo que outro grave processo vem pela frente, o jornalismo empresarial quer desgastar o publicitário ainda mais, provavelmente com o objetivo de lhe tirar credibilidade para uma delação premiada no caso tucano. Não faltarão mervais para dizerem que o publicitário colaborou mais na instrução contra os tucanos que contra os petistas, o que, por si, tira o valor de sua palavra. Muitas serão as teses que defenderão que, no processo que ainda será julgado, só a Valério deva recair pena.

A outra explicação para a pauta “Valério quer falar mais sobre o mensalão” é a vontade explícita que a maioria da direita brasileira tem de atingir Lula. Boa parte da crônica política não entende e não aceita o fato do “mensalão” não ter impedido a reeleição de Lula e, depois, que elegesse a sucessora. O fato de agora, mesmo após dois meses de cobertura incessante do julgamento que prejudicava alguns de seus líderes, o PT ter se saído vencedor das eleições municipais, torna tal inconformidade ainda mais forte. O fato de Lula ter sido uma figura presente e vitoriosa nas eleições demonstra que ele segue sendo o grande “jogador” da política brasileira dez anos após sua primeira eleição vitoriosa, algo raríssimo na história política. Em 2014, sabem todos, tanto Lula como Dilma gozam de amplo favoritismo para mais um mandato petista. Tudo isso gera quase um desespero. A tentativa de mais uma vez tentar transformar Lula em réu no “mensalão” é resultado direto dessa conta. No entanto, mais uma vez, existem poucos sinais de que obterão sucesso na tentativa.

O que fica evidente, mais uma vez, é que a nossa grande imprensa não trata os temas com a clareza que eles merecem. Por vezes, parece confundir de propósito, sempre com o objetivo de proteger os seus.

Também é claro que Valério é uma bomba, o típico “homem que sabe demais”. Por conta de tudo isso, há que se proteger muito a vida desse cidadão. Aliás, qualquer coisa que lhe acontecesse seria imediatamente definido pela grande imprensa como responsabilidade de Lula. Não é necessário maior vidência para saber disso. Por mais que talvez quem mais tema hoje o que ele tem a dizer sejam os réus do próximo processo. Mas aí é o grande limite: quem constrói as narrativas e lhes dá a palavra final é essa imprensa empresarial, sempre tão desonesta nas suas manchetes e conclusões.

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  1. #1 por Vitória Famer em novembro 8, 2012 - 4:44 pm

    Não entendo, sério. Sinto ser algo de bipolaridade, porque não tem outro termo, muito menos coerência.
    Quando publicaram aquele viral ridículo da Veja com um capa da novela das 9h, sendo que na verdade tratava de um assunto bem atual de vingança, individualidade do ser humano, todoooooo mundo criticou – e sem ler, isso que é mais curioso, e desculpa o termo, mas é nojento também. Quem opina sem ler…
    Dai no teu blog tu começa criticando porque a Veja dedicou duas capas a um dos condenados? Não entendo.

    Tu sabe até melhor do que eu (ahueiauehaehu) mas sempre vão tentar apelar para todos os lados, os réus. Podem, sim, estar mentindo tentando incriminar o Lula. Mas que nem tu defende que os advogados, por exemplo, devem apresentar suas opiniões, ou quando tu critica o Joaquim por suas risadinhas autoritárias… O que eu quero dizer é assim: é uma hipótese, pois, afinal, nesse emaranhado de mentiras e crimes, nunca se sabe quem está falando a verdade ou mentira, principalmente por faltas de provas explícitas. Confesso que eu gosto da teoria do domínio do fato. Talvez tu gostasse se fosse o caso do mensalão de Minas, não sei… Um revista não é a Polícia Federal, não é o MP. Se recebe uma possível pauta que tenha no mínimo nexo, não tem problema nenhum em publicar. Ou tu acha que a Carta$$ não publicaria alguma denúncia, sei lá, contra o Serra? Duvido que não faça isso… Muitas vezes se publica quando têm lógica… Assim como advogados tentam defender clientes com respostas lógicas, nem sempre com a verdade…ninguém é santo…

    Concordo que omissões de informações são graves. De ambos os lados, né?
    Antigamente a Veja, no caso Collor, era a queridinha do PT, que inclusive foi alimentada com denúncias do Dirceu, na época. Hoje, a querem morta.
    Muito fácil. E isso não sou eu quem diz, apenas – embora sempre defendi. Inclusive numa aula na semana passada o meu professor e ex-governador do estado, Antonio Hohlfeldth comentou isso em aula.

    “Participação deles nos crimes não fosse tão clara.” Meio perigoso isso para um petista afirmar. Sei que tua intenção não é fazer um texto imparcial porque a maioria de vocês não considera isso… Mas fica complicado aceitar essas coisas quando vem de alguém que é partidarizado…

    Tu sabes que quando se trata com bandido, é perigoso acreditar em tudo, ou achar que se falou tudo. Para o caso dos mensaleiros, sejam eles de Brasília, Minas Gerais ou qualquer outro lugar, acho que é quase essa lei que vale também. No que ele puder omitir para se prejudicar, não tenho dúvidas que ele fará… O problema é quando se fala apenas que Valério tenha feito isso. Eu teria mais cuidado…

    (Eu não entendi direito aquela tua frase sobre quem não conhece os autos da ação, sobre mensalão mineiro, “conforme o gosto do freguês”, da delação. Não entendi. )

    Se outro processo vem por aí, a mídia vai cobrir também. Talvez não com tanta impecabilidade pois talvez sejam menores o número de réus e também políticos que não são tão conhecidos assim no país inteiro. E quando e fala em Jornal Nacional, por exemplo, pega o país todo. Difícil, rentavelmente falando do financeiro e do interesse do público, render bastante matéria. Não sejamos ingênuos e nem hipócritas… as matérias nem sempre são apenas porque são importantes (e concordo que seja infelizmente) mas hoje em dia as teorias jornalísticas explicam os diferentes ciclos, as teorias tanto dos Efeitos quando a de Recepção, onde hoje a mídia não apenas é a que manda na audiência, e sim a audiência que diversas vezes pauta a mídia…

    Acho que essa questão do Valério seria puramente para conseguir menos tempo de cadeia. Ou se, caso ele esteja lascado mesmo, levar gente junto. Porque se o cara for preso, como o povo brasileiro acho que quer, duvido que ele seja visto com credibilidade para o mineiro. Não tem porquê levantar isso, não tem nexo.

    Marcio, sério, por que essa mania da “direita brasileira” se o PSOL, por exemplo, infinitamente mais esquerda verdadeiramente do que o PT que deixou de ser, também quer a justiça contra bandidos mensaleiros? Acho que não precisa desse discurso de dor de cotovelo…
    Aliás, até porque não são apenas petistas mensaleiros… PP é um deles. Ou seja, totalmente oposto (na superficial teoria ideológica, apenas, eu penso) ao governo, mas ao mesmo tempo é base… Complicado esse pragmatismo.
    Alias, tudo hoje tem a desculpa do pragmatismo… No me gusta mucho hehe

    Mas de quais “os seus” tu te refere? Quais ali dos réus possuem concessões publicas de televisão, por exemplo? Quais ali alimentam a Veja? É complicado falar, falar e falar sempre disso… Se fosse o Sarney, Collor, concordaria plenamente contigo. Do contrário…

    “sempre tão desonesta”… cuidado, Márcio… Acho que não é bem por aí. Cuidado com as generalizações. Acho que grandes casos a “grande mídia” já ajudou. Não é perfeita, evidente, mas também existe juiz que condenou erroneamente.

    Acho que era isso 🙂

    • #2 por marciomfelix em novembro 8, 2012 - 10:54 pm

      Quando julgarem o mensalão mineiro (ou tucano, conforme o gosto do freguês), eu defenderei as mesmas posições garantistas, do direito de defesa, penas brandas, etc. Pode esperar.

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