Veja e as cabras: mero besteirol ou mais um combate ideológico?

O Semanário do Esgoto publicou um texto de um tal Guzzo que reúne um conjunto de argumentos cínicos e falaciosos sobre o papel dos homossexuais na sociedade atual. Embora a primeira reação seja de simplesmente ignorar e até dar alguma risada, a um segundo olhar se percebe que o sujeito fala sério (ou tenta). E que o Semanário não publica o texto como uma despretensiosa peça de humor, mas como um instrumento de combate.

Trata-se de um amontoado de bobagens, mas todas elas são repetecos de coisas que se ouvem, aqui ou ali, no senso comum mais cruel possível. Mais: o simples fato de ser tão agressivo nas besteiras que reproduz (como a comparação de homossexualidade com zoofilia ou pedolifia) já faz merecer nosso sincero nojo, não remetendo o texto ao mero folclore.

Um dos pontos em que o autor procura trabalhar é a ideia de que a orientação sexual é uma questão individual, não coletiva. Logo, ninguém precisaria se organizar ou se expressar como grupo. E que não há o que a sociedade deva ou possa fazer em relação aos homossexuais. Logo, o que propõe o sujeitinho é a invisibilidade: escondidos, os gays podem fazer o que bem entenderem. O raciocínio vai ao ponto por muitos utilizado: o fato de ser gay não deve ser razão para a obtenção de direito que outros quaisquer não o tenham.

E nesse ponto, o cinismo começa a comer frouxo: primeiro, porque não é um estranho a determinado corpo social que pode dizer se determinadas pessoas devem ou não compor uma coletividade, mas elas próprias. Pessoas como o sr Guzzo são os mesmos que gostariam de decretar que os Metalúrgicos do ABC ou os Bancários de Porto Alegre são cada um indivíduos diferentes, não precisam compor uma coletividade, já que “a única coisa que eles tem em comum é trabalharem no mesmo ramo”. Quem usa dessa falácia certamente detesta qualquer coletividade, seja qual for.

Mas o principal: existe um brutal déficit de direitos sonegados aos homossexuais, o que faz com que, sim, a pauta seja viva, queira ou não o conservadorismo. Nesse ponto, há que registrar a imensa vitória que representou a reeleição de Obama, que teve a coragem de, antes da eleição, manifestar abertamente o apoio ao direito de casamento entre pessoas do mesmo sexo. Por si, deveria servir como reflexão às burocracias partidárias que insistem em se render á homofobia para supostamente não perder voto.

Mas sigamos nos argumentos do texto publicado na Veja: não seria necessário o direito a casamento de pessoas do mesmo sexo, porque o direito de herança está assegurado, segundo o tal Guzzo. Qualquer homossexual poderia destinar ao companheiro 50% de seus bens, por testamento, respeitando a legítima, que caberia aos seus herdeiros “legítimos”, segundo o autor. Tal argumento é de um cinismo assustador. Primeiro, porque na constância de um relacionamento longo, o patrimônio de um casal muitas vezes é constituído de forma conjunta, cabendo a eles definirem a forma como será partilhado ou herdado, não a terceiros, estranhos à relação e à vida deles. Há ainda que se ressaltar o tanto de histórias de pessoas que perderam os companheiros e viram os bens que haviam ajudado a acumular indo para familiares que, em vida, tinham cortado relações com o seu parceiro falecido e que agora vinham buscar sua “legítima”. Evidente que tais histórias são inaceitáveis.

O último argumento relevante do texto (porque não há que se falar sobre as cabras) é sobre a tentativa do tal de Guzzo afirmar que não existe violência específica contra homossexuais. Segundo ele, a sociedade brasileira é que é um caos de violência. Se gays ou mulheres ou negros são vitimas da violência, são porque estão num país violento, não porque são gays, mulheres ou negros.

Mais uma vez, o articulista esgaça a desonestidade e luta contra a vida real. Qualquer pessoa que ler os jornalões verá, todos os dias, casos de pessoas que são vítimas de crime de ódio. Evidente que muitos gays serão vitimas de crimes patrimoniais, como heteros o são. Mas talvez não existe um caso a se registrar por ano de alguém que seja morto ou espancado por ser heterossexual; por ser homo, diariamente.

O artigo, de resto, é longo, mal escrito e risível na maioria de suas bobagens. Mas não está publicado na Veja por nada: é uma forma da revista continuar atacando e fazendo seu combate ideológico. Pena que, do outro lado, tenhamos uma esquerda frouxa e medrosa para o tema, porque teme perder votos. Muitos dos quais acham que Obama não tem nenhum mérito, justo ele, um Presidente da República eleito após comprar a briga que eles, tão de esquerda, não ousam nem pensar em comprar.

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