Um colorado se despede do Olímpico

Embora colorado, a iminente demolição do Olímpico me dói um pouco, sim. A brincadeira é saudável e a vida inteira me acostumei a chamar o estádio da Azenha de “chiqueiro”. Sinceramente, acho o Olímpico por fora uma coisa meio violenta na geografia da cidade. Mas como todo estádio que um dia tenhamos frequentamos guarda um pouco das nossas emoções, não é diferente com o Olímpico.

Confesso mais: na realidade, muitas das minhas emoções mais importantes como torcedor do Inter e de futebol (nessa ordem, sempre) se passaram lá, no estádio que deixará de existir, infelizmente.

Eu tinha 10 anos em fevereiro de 1989 quando, pela primeira vez, tive a oportunidade de ir a um estádio. Era um guri que morava na pequena Santana da Boa Vista e já tinha sido convencido pelo meu pai a torcer pelo Inter, mesmo que numa década já difícil (e especialmente em anos muito duros, onde o Colorado não ganhava nem gauchão). Naqueles dias escaldantes, Inter e Grêmio iam disputar dois clássicos valendo pelas semifinais do Brasileirão de 88 (nessas coisas que só a bagunça do futebol brasileiro é capaz de explicar). Depois de algum convencimento por parte de meus padrinhos, fui liberado pelos meus pais para vir passar uma semana em Porto Alegre com o objetivo de assistir aos dois jogos.

Numa quarta-feira no meio da tarde, fui com meu padrinho Arthur para o primeiro jogo, o Gre-Nal do Olímpico. Logo, era a primeira vez que eu ia a um jogo de futebol em estádio e, pela ordem dos jogos e ironias da vida, o guri colorado teria a primeira experiência com o maior espetáculo da terra justamente no “Chiqueiro”, que é o estádio do adversário, seja ele qual for. Mas a ironia tem requintes de crueldade, no caso: como meu padrinho é gremista (e dos mais que conheço), não tive alternativa naquele primeiro jogo senão ir pra torcida do Grêmio, com ele. Como ele tinha a estranha mania de ir sempre muitas horas antes do horário do jogo, ficamos ao menos umas duas horas só esperando os portões serem abertos. Como éramos, nas minhas distantes lembranças, os primeiros chatos na volta do estádio, ele ainda conseguiu convencer um dos seguranças a permitir que fossemos até o campo. Tudo aquilo era um mundo inimaginável. E era no Olímpico. Um zero a zero típico, como foi o último clássico disputado na quente tarde de 02 de dezembro de 2012.

Por dupla sorte, pro jogo do domingo ele conseguiu passar a tarefa de me levar ao jogo para amigos colorados, me dando a alegria de ver o “Gre-Nal do Século” do meio da arquibancada inferior do Beira-Rio. A outra grande sorte foi que estava no meio da massa vermelha na comemoração de uma virada histórica, dois gols de Nilson em jogadas armadas pelo genial ponteiro Maurício. Uma virada no segundo tempo, com um jogador a menos. O maior dos Gre-Nais, pra sempre.

A diferença marcante entre os dois momentos é que em 1989 a torcida adversária ocupava cerca de um quarto do estádio. Nos anos 2000, vi vários Gre-Nais no Olímpico, acompanhado de amigos e as vezes até sozinho. Entre 2004 e 2006, especialmente, não perdi um. Nesse período, o visitante tinha cerca de 4 mil ingressos à disposição. Já não era muito tranquilo, mas era emocionante. Lembrarei sempre do Gre-Nal em que fizemos 3 x 1 no Grêmio e selamos o rebaixamento do tricolor num dos seus piores anos. Chovia muito e era véspera da eleição de 2004. Suprema alegria contribuir com o rebaixamento do Grêmio e isso lá, dentro do Olímpico.

O último Gre-Nal que eu fui já fazem 06 anos. Foi também um 0 x 0. Primeiro jogo de decisão do Gauchão de 2006. No jogo de volta, o empate em 1 x 1 no Beira-Rio nos custou o título regional e talvez tenha sido o catalisador para uma “sacudida” que nos levaria a ganhar a Libertadores, meses depois. Mas aqueles dois jogos foram chatos, truncados, avolantados, como quase todos os Gre-Nais são. Só que poucas vezes me incomodei tanto. Na saída do Olímpico, tive que correr pra não ser cercado, com dois amigos. Começava a lamentável pregação de realizar clássico com torcida única. Comentei tristemente com um dos amigos que aquele era o último Gre-Nal em que iria ao Olímpico. Não quis mais correr o risco. Aquela tarde me doeu como colorado, mas muito mais como apaixonado pelo futebol. De algum modo, o medo de morrer numa briga de torcidas me tirou um dos grandes prazeres, que era aquela caminhada cuidadosa e tensa ao Olímpíco, pela Azenha tão condicionada por ser caminho do futebol (o que será da Azenha daqui pra frente, aliás?)

Mas o fato mais marcante de toda minha subjetividade envolvendo o Olímpico não é ainda nenhum dos jogos que eu já narrei. É um empatezinho chato em 1 x 1, em 16 de outubro de 1994, pelo Brasileirão. Dois times meia boca, numa época de vacas magérrimas, especialmente pro nosso lado (ainda estávamos distantes 12 anos da retomada das glórias). Lembro quase nada do jogo em si. Mas foi o único jogo que eu fui ao estádio com meu pai. O Zé Mário tem a mesma fobia para “junção de gente” que eu, só que ele não abre exceção. Eu abro, para shows e estádios. Ainda assim, depois de um certo esforço, consegui convencê-lo a deixar a volta pra Pelotas pra depois da hora do jogo.

Ir junto pro estádio é um dos maiores sinais de amizade que duas pessoas podem cultivar. Numa relação pai e filho, é ter a felicidade de compartilhar uma intimidade que o futebol gera e talvez poucas outras coisas. Por essas ironias tantas da vida, foi o único jogo que consegui convencer meu pai a ir. Tentei outras vezes propor idas ao Beira-Rio, mas nunca. E ele, tão avesso àquilo tudo, tão louco pra ir embora, tão impaciente, mal termina o jogo e se envereda por uma saída, a primeira que viu. Estávamos no meio da torcida dos donos da casa, mesmo que eu tenha advertido ele que não era aquele o caminho. Porque o clima era menos hostil em razão do empate modorrento, só sobraram uns gritos e nenhuma pedra. Impensável aquele erro nos dias de hoje, em que metros e um batalhão de brigadianos separam as torcidas. Embora o jogo chato, foi um bonito domingo aquele único em que eu fui com meu pai ao estádio. Tenho incrivelmente nítidas as imagens de nossa caminhada de volta pra Cidade Baixa, via Érico Veríssimo, num sol forte, numa massa meio misturada de azuis e vermelhos, também impensável nos violentos dias de hoje.

De toda essa confissão, fica minha tristeza sincera pelo fim do Olímpico. Tenho contrariedade com essa necessidade de uma busca constante pelo hipernovo, pelo hipermoderno, essa ideia de que as cidades devem viver uma eterna juventude. Sou contra derrubar estádios onde boa parte da história de uma cidade foi vivida pra aproveitar o terreno e erguer espigões de duvidoso gosto. Na mesma década, Porto Alegre terá feito isso com o Olímpico e os Eucaliptos. Nesse ponto, acertou o Internacional quando optou por fazer uma reforma no Beira-Rio: tudo o que eu não quero é que o lugar onde algumas das minhas melhores recordações foram vividas vire sede de meia dúzia de escritórios ou apartamentos com piscina.

Ficarão, portanto, com o demolido Olímpico, lembranças marcantes do que fui e do que sou. E isso que o Olímpico só esteve na minha vida, ao vivo, por algumas horas sob sol e chuva. Ainda assim, belas horas. Aos amigos gremistas que estão tão chorosos e cheios de dúvida com o futuro, meu sincero respeito. Só tenho a lhes dizer que guardo comigo, também, um pouco do Olímpico.

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  1. #1 por Lauro Vitória em dezembro 3, 2012 - 11:53 pm

    Quanto mais longe eles forem, fisicamente falando, melhor!!! HAHAHAAA

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