Marin x Herzog: você samba de que lado?

Dois artigos publicados na Folha de São Paulo (A3, 10 de abril de 2013) dão conta de um debate político central dos dias de hoje: a necessidade do Sr. José Maria Marin deixar a presidência da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) imediatamente, assim como se afastar de qualquer atribuição que lhe possa dar visibilidade na Copa do Mundo de 2014.

Antes que alguém venha com a velha mania brasileira de não se posicionar porque “existem assuntos mais importantes para serem resolvidos, como saúde e educação” (que é uma das técnicas básicas de retórica de fuga do conservador médio) ou porque trata-se de um debate de uma entidade privada do futebol e, portanto, um assunto menor, vale dizer porque é, sim, um tema central a exigir posicionamento de qualquer cidadão sério. Primeiro, porque o Brasil sediará a Copa do Mundo do ano que vem e o Presidente da CBF será figura proeminente do evento. A pressão sobre Ricardo Teixeira aumentou imensamente depois da escolha do Brasil como sede da Copa. O que é lamentável é que à sua saída tenha ficado o atual presidente.

Marin foi deputado estadual, vice-governador e, com a renúncia de Paulo Maluf para concorrer a deputado, assumiu a condição de governador de São Paulo por alguns meses entre 1982 e 83, até a posse de Franco Montoro, primeiro eleito pós-ditadura.

O passado de Marin foi resgatado quando da saída de Teixeira e seu ascenso à Presidência da CBF. Essa é uma das razões possíveis porque a Presidenta Dilma Roussef até agora não aceitou receber Marin em audiência. Mas a pressão pela saída dele da entidade máxima do futebol brasileiro tem aumentado nos últimos dias, em especial com as revelações trazidas por Ivo Herzog, filho do jornalista Vladimir, morto nos porões da ditadura em 1975.

É de Ivo Herzog o artigo que sustenta as razões para a saída de Marin da CBF e funções na organização da Copa. Ele tem resgatado que Marin, como deputado estadual da Arena, fez um discurso na tribuna da Assembleia em que pedia providências da Secretaria Estadual de Cultura em relação aos desmandos na TV Cultura, onde comunistas estavam aparelhando o canal. Nas semanas seguintes, Vladimir Herzog, diretor da Cultura, foi preso e morto sob a acusação de “subversão”.

Marin se defende em artigo publicado na mesma página, logo acima. Não nega que tenha se pronunciado em 8 de outubro de 1975 no sentido de que era necessário que se tomassem providências em relação à TV Cultura. Segundo ele, era uma reclamação contra “o jornalismo parcial” que vinha sendo praticado naquela emissora. Apenas isso. Faz questão de dizer que o fato ocorreu há 38 anos. Que não tem qualquer responsabilidade pelos “lamentáveis fatos que aconteceram depois” (Herzog morreu no 25 do mesmo outubro). Segundo ele, “só mentes doentias e perversas, ou cegas pela paixão, podem ver nessa simples recomendação qualquer acusação nesse ou naquele sentido”. Que sequer mencionou o nome de ninguém. Que da sua manifestação parlamentar não pode ter ocorrido nenhum fato que não “a simples apuração do motivo porque a TV Cultura havia interrompido a divulgação das obras e realizações feitas pelos governos estadual e municipal”. Ainda conforme a cínica explicação de Marin, “um discurso genérico jamais poderia ter gerado coisa alguma, quanto menos uma prisão 20 dias depois”. Pra fechar o raciocínio, diz que “é sabido por todos que atuavam naqueles tempos que os deputados não tinham o menor poder sobre os órgãos do Estado”. A defesa do dirigente máximo do futebol brasileiro fecha com o questionamento sobre porque ele, nos anos seguintes, mesmo ocupando funções como vice-governador e governador, além de outros espaços de visibilidade, nunca foi questionado por tais fatos, somente agora.

Para toda a retórica de Marin, as respostas são relativamente simples. 1) Sua responsabilidade nos “lamentáveis fatos” ocorridos em 1975 não foi cobrada antes porque o Brasil, infelizmente, tem tratado mal a memória dos tempos da ditadura civil-militar vivida entre 1964 e 85. Felizmente, a persistência da memória e a luta de tantos tem feito o tema avançar, mesmo que a passos ainda lentos. 2) Deputado não tinha poder sobre os órgãos do Estado na ditadura? Marin era figura de proa da Arena, tanto que foi para a chapa de Maluf logo a seguir. Aliás, mesmo que os arenistas não tivessem “o menor poder sobre os órgãos do Estado”, ainda assim se beneficiavam da relação e cumpriam um papel. 3) Difícil ainda acreditar em coincidência no fato de Marin e outro deputado arenista terem se pronunciado no início de outubro contra o jornalismo praticado na TV Cultura e, no final do mês, o DOPS paulista ter procedido “investigações” que, de tão violentas, mataram Herzog. Marin, que depois seria governador, sabia perfeitamente que uma “simples investigação” gerava prisões, torturas e mortes.

Conforme informa Ivo Herzog, o então deputado José Maria Marin iria, um ano depois (07 de outubro de 1976), exaltar o maior símbolo da tortura e morte dos tempos de ditadura civil-militar, o delegado Sérgio Paranhos Fleury na mesma tribuna da Assembleia:

 

“Queremos prestar nossos melhores cumprimentos a um homem que, de há muito, vem prestando relevantes serviços à coletividade, embora nem sempre tenha sido feita justiça ao trabalho (…) Queremos trazer nossos cumprimentos e dizer do nosso orgulho em contar na polícia de São Paulo com o delegado Sérgio Paranhos Fleury”.

Difícil acreditar que Marin fosse ingênuo e não soubesse do que acontecia à sua volta. Ele era um deputado e dirigente da ditadura. Deixemos ao cidadão comum não envolvido com qualquer militância a possibilidade de sustentar tal ignorância, não aos quadros civis absolutamente implicados com o que acontecia à sua volta. Em especial a alguém que dizia num microfone que Fleury prestava “serviços relevantes à coletividade”.

O debate sobre a presença de Marin na CBF e nas festividades e organização da Copa do Mundo não é um assunto privado ou de menor importância. Ele é a expressão de um debate sério que o país enfrenta nos dias atuais e precisaria faze-lo com maior preocupação: o que fazemos com a memória da ditadura, como tratamos os indivíduos que, ocupando as mais diferentes funções públicas perseguiram e cometeram crimes bárbaros contra cidadãos e de como nos relacionamos com diversos legados da ditadura que ainda persistem nos dias atuais. Temos uma polícia que mata a rodo, temos uma legislação ainda sob fortes resquícios autoritários, temos uma burocracia estatal ainda muito acostumada a agir contrária à Constituição, em nome da defesa de interesses pessoais ou de terceiros que gozam dos benefícios da máquina do Estado contra o interesse público.

Passamos por um processo constituinte em 1988. Elegemos diretamente o Presidente da República no ano seguinte. Estamos sob o sexto mandato presidencial eleito diretamente pelo povo. Isso é salutar e inédito na história republicana. Mas estamos longe ainda de um Estado Democrátido de Direito próximo ao ideal. Parte disso se explica porque fizemos uma transição para a democracia totalmente controlada pela própria ditadura. Ninguém foi punido pelos crimes cometidos, ao contrário dos vizinhos argentinos, exemplares nesse aspecto. Até mesmo a investigação dos fatos é vista como “revanchismo”.

E aí voltamos a Marin: todos os sujeitos políticos que participaram daqueles governos devem ser cobrados por seus atos, sim. E não se trata aqui de pena perpétua ou não permitir ao indivíduo o arrependimento: Marin termina seu texto dizendo que não se arrepende de nada do que fez ao longo de sua trajetória. Ele simplesmente não acredita que exista qualquer fato pelo qual deva responder. Mas parece evidente que sim! O simples fato de ter sido vice-governador eleito indiretamente durante um período ditatorial já deveria desabonar qualquer ator político, trinta anos depois. Mas a participação conexa de Marin na perseguição a opositores do regime é evidente. Por óbvio, uma apuração penal não responsabilizaria Marin pela morte de Herzog. Mas o julgamento político deveria, sim, lhe atingir.

Em pleno ano de 2014 será vergonhoso o Brasil sediar uma Copa do Mundo e ter como um dos seus símbolos uma figura pública tão abjeta como Marin a receber delegações, entregar prêmios, sediar eventos em nosso nome. Embora todos os limites e contradições de nossa democracia em consolidação, a simples presença de Marin na cena pública depõe diretamente em relação ao que somos e queremos ser no futuro. É nesse sentido que o debate não é menor. Pelo contrário: estar com Marin ou com Ivo Herzog define onde você está como cidadão brasileiro, o que pensa de hoje, o que pensa de ontem e o que quer do seu país amanhã. O resto é retórica.

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  1. #1 por Felisberto Oliveira em maio 5, 2013 - 7:19 pm

    Parabéns, Márcio, por este texto que, além de bem redigido é uma aula, tchê!!! Tenho lido ótimos textos aqui no teu blog. Cheguei até ele através do Juremir M. da Silva (POA/RS) que também acompanho. Abçs. Betinho Gaúcho.

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