A internet e os linchadores

As redes sociais geraram, nos últimos dez anos, uma imensa mudança na forma de propagar as informações, campanhas e debates. No entanto, não inauguram valores novos e necessariamente melhores. Elas apenas permitem que todo mundo que tem acesso a um celular ou um computador se expresse, em toda a complexidade que cada ser humano tem. Alguns comportamentos tem mostrado o quanto as redes sociais também são capazes de potencializar a ignorância e a bestialidade humana.

 

1 – Um dos espaços privilegiados para se perceber o quanto o ser humano é bestial são as sessões de comentário de notícias. O “cidadão de bem” médio se expressa ali. Ele tem ódio, muito ódio. Ele quer que a polícia prenda, mate, torture. Ele defende a ditadura militar e todas as outras ditaduras que tiver ao redor do mundo. Mas acusa Cuba, Venezuela e até a Argentina de serem ditaduras. E repete: “se gosta, vai pra Cuba então”. Meia dúzia de frases feitas são repetidas nos comentários de qualquer notícia. A Copa do Mundo vai ser um caos, o país está quebrado, controlado por uma corja de corruptos, ditadores e sanguinários. Lula é um fracassado, corrupto e bêbado.

 

É curioso que para esse setor da população, algumas velhas ideias apenas se digitalizaram, mas não ganharam o tempero do tempo. É possível e legítimo não gostar de Lula, mas continuar tratando-o como um analfabeto revela, no máximo, a incapacidade de compreensão de que assim o considera. Outro dia um leitor de um desses jornais chegou a dizer que “ele nunca trabalhou”. Presidir um país é algo simples, um verdadeiro passeio, pra quem emite uma “opinião” dessas.

Na última sexta, diante da absurda notícia de que um senhor, diante do som alto dos vizinhos, invadiu o apartamento deles e os matou, muitos leitores da Folha justificavam o ato ou debochavam da situação. É desolador, em geral, se dedicar a esse tipo de leitura.

 

2 – Mas o mais assustador não é o fato de que algumas pessoas usam as redes sociais para expressar sua raiva, frieza ou seu amargor. Isso é normal, faz parte do jogo. Uma das coisas mais fascinantes de uma democracia é exatamente o fato de que ela permite, até um largo limite, que um indivíduo se utilize da liberdade de expressão para defender uma ditadura, se quiser.

O mais assustador nas redes sociais é a capacidade de disseminar mentiras de forma absolutamente natural. Uma parte importante dos usuários das redes não tem capacidade crítica para selecionar quais informações são confiáveis e quais merecem reserva. E, mesmo dentre aquelas que sejam verdadeiras, têm menos ainda capacidade de uma avaliação ética sobre o que não deve ser disseminado, por uma questão de respeito ao direito de intimidade/imagem alheio.

 

3 – Outro dia vi uma amiga compartilhar a foto de um cantor boa praça, contra a qual jamais ouvi nada que o desabonasse, com uma chamada acusando-o de violência contra as mulheres. Fui olhar no Google, ver se achava algo a respeito. Nenhuma notícia. Quando ia comentar a postagem dela, perguntando de onde tinha tirado aquilo, ela já tinha deletado a imagem, talvez advertida por um terceiro. Mas por certo outros ignorantes bem intencionados compartilharão aquilo e o cantor vai ficar, para uma meia dúzia (ou, quem sabe, para milhares), como alguém que espanca mulher.

 

4 – Outros amigos vivem compartilhando aqueles banners com a foto de uma determinada pessoa qualquer com uma legenda acusando-a de ter matado alguém, espancado o cachorrinho ou alguma outra barbaridade qualquer contra a humanidade, o mundo animal ou o reino mineral. Em muitos casos, se trata de uma grandiosa mentira inventada por alguém para atingir um desafeto e, gozando da ignorância e comoção alheia, atinge sua meta: emporcalhar a imagem alheia, num processo de compartilhamento de informação que é incontrolável.

E mesmo que um determinado sujeito tenha realmente matado alguém ou espancado um cachorro, qual o sentido faz compartilhar sua foto e uma legenda raivosa denunciando essa condição de criminoso? Em que me traz conforto fazer isso, clicar numa imagem e compartilhá-la com mais mil pessoas verão aquele rosto e o identificarão como um criminoso?

 

5 – Mais uma vez, assumimos o papel de linchadores, mesmo que agora sob uma forma virtual. O linchamento não suja minhas mãos de sangue, mas pode levar um indivíduo a cometer suicídio. Nunca pensou nisso? A minha vingança privada e virtual pode causar sérios danos a um indivíduo e aos seus próximos. E a responsabilidade é de cada um dos milhares que terão compartilhado aquela barbaridade. Sim, porque cada pessoa que reproduz a informação a dissemina para toda a sua rede. Todo compartilhamento poderá ser castigado. O crime contra a honra é cometido num clique. Nunca se deram conta?

A ignorância, diga-se, é meio universal. O linchamento virtual não é cometido apenas por amigos de viés fascista, aquela gente que odeia a tudo e a todos e sonha com a ditadura e com torturas em praça pública, não. Pessoas inegavelmente bacanas, solidárias, que lutam em vários espaços por um mundo melhor se seduzem por esse tipo de expediente. Elas querem punição a quem cometeu um crime ou é acusado de. Elas sonham com a rapidez, elas querem que a Justiça venha de elevador. Como as instituições judiciais têm seu ritmo, têm o tempo das garantias, da maturação da prova, do contraditório, da ampla defesa, elas ofendem a ansiedade de um mundo ansioso. Quem tem pressa pra tudo, também quer punição aqui e agora. A ideia da retribuição é sedutora. A imprensa quer vender jornal dialogando com esse sentimento. As redes sociais aceleram as notícias. Se vamos demorar quatro ou cinco anos para uma condenação definitiva, porque não aproveitar pra comemorar e tripudiar com a honra alheia diante de um “indiciamento”? Afinal, a entrevista coletiva da delegada foi bacana, teve até power point. O promotor aquele fala tão bem, expressa o que eu, cidadão de bem, penso. Se todos fossem iguais a ele, o vagabundo não teria vez…

 

6 – Em geral tendemos ao rompante quando algo nos ofende. Certos crimes nos chocam, especialmente. Um vídeo de um cachorro sendo espancado é revoltante, certo? Quando se revela a identidade do sujeito que possivelmente queimou vivo um índio ou atingiu um menino com uma fluorescente na Avenida Paulista por pura e simples homofobia, a vontade é da resposta em igual intensidade, não?

Acho especialmente legítima a expressão retributiva quando envolve um ente querido, um parente, um amigo. Entendo as razões de quem, diante de tal espécie de comoção, sonha com a retribuição. Fora essa situação excepcional de envolvimento, não me peçam para respeitar o linchador. A barbárie trazida para o mundo digital é inaceitável, tanto quanto a morte de um assaltante na porta da delegacia sempre o foi.

O que te faz se sentir legítimo para compartilhar a foto de alguém e uma acusação contra aquela pessoa? O que te faz compartilhar uma informação que sequer tens certeza de que seja verdadeira? E se em algum momento da vida, fores tu a vítima de algum crime virtual desses, como vai ser?

 

7 – As pessoas reproduzem sem pensar pequenas e inofensivas (embora chatas) bobagens como a cobrança ou das regras de privacidade do Facebook. Chega a ter aquele texto padrão que fala que “Eu, fulano, no pleno gozo de minhas faculdades mentais (…)”. Quem inventou a besteira foi criativo, ao menos.

Logo, se besteiras como essas são compartilhadas a rodo, normal que assuntos graves comovam e mobilizem. De algum modo, as pessoas querem aproveitar o espaço para disputarem a opinião dos amigos e conhecidos. Logo, se algo lhes ofende, elas querem denunciar. O crime aquele que chocou precisa ser punido. De repente, diante da foto de um estuprador, já que ele talvez não vá nem ser preso, ao menos eu vou me vingar dele, espalhando a cara imunda dele para o mundo todo ver. Mas que direito eu tenho de fazer isso? E se daqui a pouco eu descubro que aquele menino é apenas o filho de uma amiga e que aquela falsa notícia é uma mera vingança por uma briga de colégio? Quando isso chegar em você compartilhado por algum amigo, terá chegado para você e mais quinhentos. E aí?

 

8 – Por vezes, as pessoas tem dificuldade para perceber que a rede social não é exatamente um “mundo virtual”, mas um canal de expressão de notícias sobre o real. É tudo fácil, somos todos um pouco poderosos, mas o que fazemos aqui ecoa e produz consequências no real, muitas vezes. Não é exatamente um videogame. Esse texto será lido por algumas dezenas de pessoas, talvez. E eu tenho um mecanismo em que eu controlo exatamente esse número, de onde chegaram à leitura, até o país do sujeito. Vez que outra, tem gente lendo meu blog lá da Austrália, sabe-se lá porque. Cada um de nós ganha, com as redes sociais, um pouco de poder. Não somos inofensivos, portanto. O que dizemos de forma original ou aquilo que compartilhamos será visto, lido e talvez reproduzido por mais gente, nos lugares em que nunca estaremos.

Por conta desse “pequeno” poder que a rede social nos dá, precisamos ter cuidado com o que expressamos. Nossa expressão virtuosa pode ajudar alguém, uma informação verdadeira das redes pode derrubar uma mentira de um grande veículo de comunicação. Mas um linchamento virtual pode levar alguém ao suicídio. E cada um que tenha participado do linchamento terá uma parcela de responsabilidade sobre isso.

Talvez seja a hora, portanto, de pensarmos um certo código de ética nas expressões virtuais. Fica a provocação.

Anúncios
  1. #1 por Lucas Lazari em maio 27, 2013 - 4:48 pm

    Provocação aceita.

    Concordo com muito do que foi dito. Principalmente com a boataria que é espalhada nas redes sociais. Além do linchamento de pessoas inocentes tem as montagens. Vários amigos compartilharam uma foto do Messi com uma camisa do Hugo Chávez. Tem ainda as notícias sensacionalistas da velha mídia que encontram no Facebook e Twitter espaço para se espalharem. Um jornalão da Paraíba disse que Marina Silva defendeu Marco Feliciano e tal matéria virou Trending Topics no Twitter.

    Apenas as “condenações facebookianas” que penso que cabe um bom debate. Se por óbvio não é razoável sequer expor uma pessoa contra a qual não há o mínimo indício de culpabilidade pela autoria de tal delito, não é razoável exigir que a população aguarde o trânsito em julgado de um processo para emitir suas posições.

    Criticar um servidor do DETRAN que se negou a fazer o teste do bafômetro, denunciar que há empreendimentos imobiliários na cidade cujas licenças foram emitidas por ex secretários alvos de investigação da PF ou que determinado juiz possui relações íntimas com determinado réu são atitudes não apenas legítimas como necessárias. O tempo da política (e, por conseguinte, do Facebook) e do direito são diferentes. Assim como o rigor na análise da prova também são. Não por acaso Collor foi cassado pelo senado e absolvido no STF.

  2. #2 por Angela Ztrahal em maio 28, 2013 - 8:27 pm

    Perfeito.

  3. #3 por Lila em setembro 3, 2014 - 12:09 am

    “Mais uma vez, assumimos o papel de linchadores, mesmo que agora sob uma forma virtual”.

    O poder das redes sociais é realmente assustador. Volta e meia penso que talvez eu esteja um tanto pessimista, que a situação não esteja tão alarmante assim, Mas aí vem um acontecimento ou uma nova fase polêmica (Copa, eleições, etc) que leva novamente os meus pensamentos à imagem de um futuro sombrio.

    Não à toa, resolvi cair fora das redes sociais. Comentei com os amigos que talvez voltasse depois da tormenta de 2014. Mas, sinceramente, até o momento não tenho sentido a menor vontade.

    Nada mudou. Apesar do maior acesso à informação, da maior familiarização com o ambiente virtual, noto que as pessoas continuam usando a internet de maneira descontrolada.

    Mais de um ano depois, seu texto continua atual. E o que me deprime é acreditar que ele continuará atual por um longo tempo…

    Parabéns pelo texto.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: