Arquivo de março \06\UTC 2014

Os anos de escravidão, os “méritos” de hoje e os direitos humanos

Acabo de ver o filme “12 Anos de Escravidão”, de Steve McQueen, adaptação da autobiografia de Solomon Northup, negro que era livre e foi sequestrado em Washington e levado para o sul escravista dos Estados Unidos e que, até conseguir ser libertado, viveu as agruras da escravidão por 12 anos.

O filme é incrivelmente bem feito. As acusações de seja violento demais são curiosas: violenta era a escravidão; violentas são nossas práticas de resquício da cultura escravista, ainda vivas.

“12 Anos de Escravidão” é um filme bem dirigido, com um bom roteiro, excelentes interpretações. Há algo especialmente primoroso no filme: as cenas em que os escravos cantam. Ao que parece, músicas resgatadas por um intenso trabalho histórico. Os longos campos de algodão onde escravos cantam enquanto colhem compõem cenas comoventes, que engrandecem profundamente o trabalho de McQueen.

Já vi acusações de que a narrativa é por demais individualista, não da luta coletiva dos escravos. Embora ao final se informe que Solomon se tornou um militante abolicionista, não é essa a sua preocupação durante toda a história. Se pode acusar o filme de abordar uma história de escravos pouco resistentes, com postura de relativa passividade. Tudo isso, no entanto, poderia servir para desmerecer McQueen e suas opções, o que não faz nenhum sentido. Há que se aproveitar o filme para refletir sobre a escravidão, isso sim.

A escravidão é um dos fenômenos menos abordados pelo cinema e pela literatura, ao longo da história. Alguns textos têm procurado comparar o número de filmes que abordam a escravidão em contraponto àqueles tantos que abordam a questão do holocausto. Não se compara. Mais: no Brasil, quantos filmes abordaram (felizmente) a ditadura e quantos abordaram a escravidão? Por isso, nada pode diminuir o filme de McQueen. Durante o filme duas coisas especialmente me vieram à mente e quero aproveitar o espaço para dividi-las.

1 – “O fruto do nosso trabalho” é resultado de séculos de trabalho escravo

No Brasil, a escravidão foi formalmente abolida em 1888. Logo, temos pouco mais de um século. Fomos o último país do mundo a retirar de suas leis a possibilidade de um ser humano ser PROPRIETÁRIO de outro.

Tal fato deveria nos envergonhar, mas não. Como em tudo, nossa história da abolição da escravidão não procura incluir os negros na sociedade: apenas os joga na condição de “livres” para continuarem escravos de fato ou serem miseráveis. Mais de um século depois, nos dispusemos a adotar políticas de discriminação positiva, por meio de cotas raciais e sociais. Que são ainda debatidas como se fossem as políticas reparatórias capazes de disseminar a “divisão do país”. Ainda somos obrigados a ouvir todos os dias brancos dizerem que não somos um país racista; ainda somos obrigados todos os dias a ouvir brancos reclamando que “agora tudo é preconceito”, reivindicando o direito de fazerem piadas com a condição do outro de negro, de mulher, homossexual ou o que quer que seja que supostamente lhe diminui. Somos ainda uma sociedade profundamente preconceituosa, em vários aspectos. Com o gravame de sermos uma sociedade onde o debate é todo dirigido pela hipocrisia. Somente no ano passado os trabalhadores domésticos passaram à condição de igualdade com os demais, num resquício evidente da cultura escravocrata. Não sem a oposição de muitos que acham equivocada a legislação. Ainda hoje temos trabalho em condição análoga à escravidão em todo o território nacional.

Soa entre o deboche e a ignorância determinados setores se oporem a políticas afirmativas invocando a meritocracia, a ideia de que cada um deve buscar, por sua conta e risco, suas conquistas, sem a intervenção do Estado. Curioso que era o Estado que garantia, por leis e aparato policial, o direito dos proprietários manterem escravos. Curioso que alguns dos que hoje se sentem prejudicados pela simples existência de políticas afirmativas sejam herdeiros de grandes fortunas construídas a partir do trabalho escravo. O apogeu da indústria do charque, na Região Sul do Rio Grande do Sul, foi construída com o sangue e o suor dos negros cativos (e quem escreveu sobre isso foi Fernando Henrique Cardoso, no seu brilhante “Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional”). São fatos históricos que todos conhecemos, mas procuramos ignorar. Porque o Brasil nunca enfrentou com a coragem necessária o tema.

Enquanto não aceitarmos isso e reconhecer tal fato histórico, sempre acharemos que o Estado deve deixar cada um por si, pelos seus “méritos”, buscar uma vaga na universidade. Ao encarar a verdade, nos damos conta que começamos muito tarde a reparar a escravidão. Um atraso de uns 100 anos, parece.

2 – E os Direitos Humanos nisso?

O outro ponto que me chamou a atenção durante o filme foi a questão sempre invocada pelos piores seres humanos, que é o combate à universalidade dos Direitos Humanos.

Num momento do filme, Solomon fica pendurado pelo pescoço durante um dia inteiro, em punição. A vida segue, crianças brincam em sua volta, os demais escravos não podem intervir, a esposa do dono da fazenda olha a cena indiferente de sua varanda. Só quando o senhorio chega, à noite, corta a corda e liberta Solomon do suplício.

Em outra cena, uma escrava leva chibatadas com a intenção de lhe provocar a morte. Solomon é obrigado a iniciar a tortura, sob a ameaça de ser morto.

É óbvia a semelhança de tais cenas com os negros que têm sido atados a poste quando supostamente flagrados cometendo delitos. Tais cenas contemporâneas nada mais têm sido que a expressão de uma revolta das elites contra a suposta impunidade existente nos dias atuais, contra os “direitos dos manos”, que protegem marginais, lhes permitem seguir amedrontando a tudo e a todos, ameaçando a vida e, principalmente, o patrimônio dos homens de bem (brancos e proprietários, não por acaso!) Quem faz esse discurso ignora propositalmente que já vivemos no Brasil um processo de ercarceramento em massa e que os negros são a ampla maioria da população carcerária desse país e que para essa população não existe “impunidade” coisa nenhuma. Pelo contrário, vez ou outra fazemos mutirões carcerários para concluirmos que milhares de detentos já deveriam ter sido liberados por já terem cumpridos suas penas. “Quase todos pretos/ou quase brancos/ou quase pretos de tão pobres”, como disseram Caetano e Gil em “Haiti” (1993)

No fundo, estamos diante do grito daqueles que tem saudade do que seus antepassados viveram, de quando podiam chicotear suas propriedades. Recementemente, o Secretário da Fazenda de Salvador lamentou publicamente não poder colocar devedores de tributos no Pelourinho. À Fazenda Pública faltam recursos para defender o patrimônio dos cidadãos de bem porque vagabundos não podem ser surrados no Pelourinho! Que mundo de impunidade esse!

Infelizmente, há uma escumalha moral que não entende que as situações de barbárie das guerras, a ocorrência do Holocausto, milhões de vidas obrigaram os países centrais a pactuarem códigos mínimos de convivência a qual se consagrou chamar Direitos Humanos. E que a vigência de tais códigos faz a todos nós humanos, dignos, capazes de exercitar compaixão. Quem repudia a universalidade dos Direitos Humanos, no fundo, gostaria de ter um relho na mão, pensa como o senhorio do filme que diz que sente prazer no ato de torturar. Logo, quem repudia a universalidade dos Direitos Humanos deveria ver “12 Anos de Escravidão” e repensar seus conceitos. Se não os repensar, francamente: não é digno, de minha parte, de qualquer exercício de alteridade.

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